Flamengo na Copa do Brasil: veja como o clube se tornou um dos maiores vencedores da competição
Nem toda tradição nasce pronta.
O Flamengo na Copa do Brasil foi sendo construído em finais pesadas, campanhas de resistência e noites em que a camisa precisou responder quando o jogo apertou. O clube chegou ao pentacampeonato em 1990, 2006, 2013, 2022 e 2024, dividiu com o Grêmio a condição de segundo maior vencedor da história do torneio e transformou a competição em um dos territórios mais fiéis da sua identidade recente.
O ponto de partida
A história começa cedo. O primeiro título veio em 1990, logo na segunda edição do torneio, e já veio com marca forte: de forma invicta. O caminho passou por Capelense-AL, Taguatinga-DF, Bahia, Náutico e Goiás. Não era só uma taça nova em uma competição nova. Era uma entrada de peso em um torneio que sempre cobrou nervo, leitura de jogo e sobrevivência em ambiente hostil.
Aquele Flamengo de 1990 tinha a cara de um clube que ainda carregava a memória recente da era de Zico, mas já precisava escrever outro capítulo. E encontrou na Copa do Brasil um caminho imediato para isso. O próprio clube registra que aquela foi a primeira conquista de Júnior em sua segunda passagem pelo Flamengo, já de volta da Itália, enquanto Gaúcho terminou como artilheiro rubro-negro da campanha, com 5 gols. A taça deu ao torneio uma conexão rápida com a memória afetiva da torcida.
Isso importa porque a Copa do Brasil nunca foi torneio de conforto. É competição de margem curta, decisão acelerada e noite em que um detalhe muda tudo. O Flamengo venceu cedo nesse cenário e aprendeu cedo a linguagem do mata-mata. O que viria depois não seria uma linha reta. Mas seria uma repetição constante de uma mesma ideia: quando o torneio apertava, o clube quase sempre encontrava um jeito de voltar.
A evolução
Depois do título de 1990, o Flamengo não transformou a Copa do Brasil em coleção automática. O que construiu foi algo mais forte do que uma sequência linear: a capacidade de reaparecer em contextos muito diferentes e continuar relevante. Essa é uma das chaves para entender por que o clube não é apenas um campeão eventual do torneio. É um campeão que soube atravessar épocas.
O segundo título, em 2006, ajuda a contar isso com clareza. Aquele Flamengo vinha de um período turbulento. O clube havia escapado do rebaixamento no Brasileiro de 2005 e começou 2006 em cenário conturbado. O bicampeonato, portanto, não foi simples continuação da glória de 1990. Foi reação. Foi um time ferido reencontrando peso nacional em um torneio que não permite distração.
E foi um título com personagens muito definidos. Pela primeira vez, a Copa do Brasil foi decidida por dois clubes do mesmo estado, e o Flamengo encarou o Vasco em uma final que carregava o peso de um dos grandes clássicos do Flamengo. No jogo de ida, venceu por 2 a 0, com gols de Obina e Luizão. Obina saiu do banco, abriu o placar e virou o rosto mais marcante daquela primeira partida. Na volta, o Rubro-Negro venceu de novo, por 1 a 0, com gol de Juan, e fechou um bicampeonato que devolveu força ao clube em um momento em que a camisa precisava voltar a falar alto.
O tri, em 2013, pertence a outra atmosfera. O clube vivia processo de reorganização, reencontrava o Maracanã e construiu uma campanha robusta: 14 jogos, 11 vitórias, 2 empates e 1 derrota. Não foi um título de sobrevivência. Foi um título de afirmação. O Flamengo superou adversários pesados, cresceu nas fases agudas e terminou a competição como o primeiro campeão da nova fase do Maracanã.
E essa campanha teve dois rostos incontornáveis. Hernane Brocador terminou a Copa do Brasil de 2013 com 8 gols, foi artilheiro da competição e marcou também na final. Elias foi decisivo além da decisão. Marcou contra o Cruzeiro em um jogo que o próprio elenco tratou como determinante para a campanha e voltou a aparecer em fases seguintes antes de balançar a rede outra vez no 2 a 0 sobre o Athletico-PR na final. O tri não foi apenas um título. Foi o momento em que o Flamengo mostrou que já conseguia, outra vez, crescer como time de mata-mata.
A consolidação recente fechou o círculo. Em 2022, o Flamengo empatou por 0 a 0 no primeiro jogo com o Corinthians, fez 1 a 1 no Maracanã e venceu por 6 a 5 nos pênaltis, conquistando o tetracampeonato. Em 2024, bateu o Atlético-MG por 3 a 1 no Maracanã e por 1 a 0 na Arena MRV, com gol de Gonzalo Plata na volta, e chegou ao penta. Um título veio pela tensão máxima. O outro, pela autoridade. Os dois, juntos, recolocaram o Flamengo no centro histórico da competição.
Os momentos decisivos
Se a história do Flamengo na Copa do Brasil pode ser lida por grandes cortes, o primeiro deles é 1990. Porque ali o clube não apenas conquistou sua primeira taça no torneio. Conquistou de maneira que deixava uma mensagem: sabia jogar esse tipo de competição. A presença de Júnior, o protagonismo ofensivo de Gaúcho e a campanha sem derrota deram ao título inaugural um peso que vai além da cronologia. Foi o Flamengo se apresentando ao torneio já como protagonista.
O segundo corte é 2006. E ele pesa não só pela taça, mas pelo contexto emocional. Um clube que vinha de instabilidade reencontra sua força em uma final contra o Vasco. Obina sai do banco e abre o caminho na ida. Luizão amplia. Juan fecha a conta na volta. Três nomes, três momentos, uma mesma leitura: quando a final cresceu, o Flamengo encontrou personagens para sustentar a camisa. É por isso que 2006 continua tão forte na memória rubro-negra. Não foi só vitória. Foi restauração de confiança.
O terceiro corte é 2013, porque ali a campanha deixa de ser apenas título e vira narrativa de retomada. Hernane Brocador foi o artilheiro e o finalizador da história. Elias foi o volante que foi crescendo até virar também rosto da decisão. O Flamengo voltou a se ver grande em um torneio nacional de mata-mata, e voltou a fazer isso no Maracanã, em um estádio reaberto, diante de um ambiente que ajudava a transformar a conquista em símbolo. O tri não apenas devolveu troféu. Devolveu sensação de rumo.
O quarto corte é mais amplo e ajuda a explicar o patamar atual. Em 2024, o Flamengo se tornou o maior semifinalista da história da Copa do Brasil, com 17 presenças entre os quatro melhores. Esse dado diz muito. A tradição rubro-negra no torneio não foi construída apenas em cinco noites de taça. Foi construída também na frequência com que o clube apareceu, brigou e permaneceu vivo nas fases decisivas.
O presente
É isso que pesa quando uma nova edição começa. O Flamengo não entra na Copa do Brasil apenas como clube de elenco forte ou camisa pesada. Entra com a memória concreta de cinco títulos, 17 semifinais e decisões marcantes espalhadas por mais de três décadas. Poucos clubes brasileiros conseguem apresentar esse tipo de continuidade em um torneio que pune a instabilidade com rapidez.
Também é isso que explica o tamanho da cobrança atual. O Flamengo de hoje já não chega ao torneio para descobrir a própria relação com ele. Essa relação está pronta. Foi construída por Júnior em 1990, reacesa por Obina, Luizão e Juan em 2006, aprofundada por Elias e Hernane em 2013 e consolidada nas taças de 2022 e 2024. Em um clube que se acostumou a pensar como o maior clube do Brasil, a Copa do Brasil deixou de ser oportunidade eventual. Virou obrigação de presença.
O que essa história revela sobre o Flamengo atual é simples: a tradição no torneio não nasceu só da soma das taças. Nasceu da capacidade de reaparecer, decidir e transformar mata-mata em linguagem familiar. E isso muda tudo. Muda a forma como o adversário olha. Muda a forma como a torcida cobra. E muda a forma como cada estreia passa a ser lida. O Flamengo não entra mais na Copa do Brasil como quem tenta escrever uma tradição. Entra como quem precisa sustentá-la.
A Nota do Radar
A Copa do Brasil não virou território rubro-negro de uma vez. Virou na repetição. Na volta. Na capacidade de atravessar gerações diferentes sem perder o instinto de decisão.
A leitura é clara: o Flamengo na Copa do Brasil se tornou tradição menos pela soma fria dos troféus e mais pela frequência com que soube aparecer quando o mata-mata exigiu nervo e resposta. A pergunta que fica é inevitável: diante de uma história assim, o Flamengo ainda entra nesse torneio como candidato ou já entra como referência viva do que significa saber jogá-lo?
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