Em 13 jogos, Jardim já deixou outro Flamengo em campo
Havia uma pergunta no ar.
Leonardo Jardim chegou para corrigir resultados ou para mudar o Flamengo por dentro? Em 13 jogos, a resposta começa a aparecer. O time venceu muito, sim. Mas a mudança mais importante talvez esteja em outro lugar: na forma de competir, de rodar o elenco, de sobreviver sem peças-chave e de escolher como quer controlar um jogo.
O sistema
O sistema de Leonardo Jardim no Flamengo ainda não é um desenho fixo no papel. Ele não chegou ao Flamengo para instalar uma escalação definitiva, um onze intocável ou um modelo engessado. O que aparece com mais clareza é uma base flexível, que pode partir de uma estrutura com linha de quatro, dois homens por dentro e três jogadores mais móveis atrás do centroavante, mas muda conforme o adversário, o desgaste e as ausências. O recado dos primeiros jogos foi direto: mais importante do que repetir nomes é repetir comportamentos.
Essa lógica explica um dado central do início do trabalho: Jardim não repetiu escalação nas 10 primeiras partidas. Não foi acidente. Foi método. O treinador usou 23 de 25 jogadores possíveis em apenas nove jogos e deixou claro, desde cedo, que não trabalharia com um Flamengo de titulares cristalizados. A lateral direita e as pontas, por exemplo, viraram setores de revezamento constante, o que mostra um técnico mais interessado em montar respostas do que em proteger hierarquias antigas.
Também por isso o sistema não pode ser lido só como número. O Flamengo de Jardim se organiza por zonas, encaixes e funções. Há jogos em que o time sobe a pressão. Há outros em que recua, compacta e espera o momento certo de acelerar. Na vitória sobre o Cruzeiro, logo no segundo compromisso do português, o time trocou posse com o adversário, marcou em alturas diferentes e aceitou defender sem a bola por mais tempo do que costumava. Ali apareceu uma pista importante: o novo Flamengo não quer dominar sempre do mesmo jeito.
Os mecanismos
O primeiro mecanismo visível é a variação da pressão. Jardim não amarrou o Flamengo à obrigação de sufocar o adversário o tempo inteiro. O time começou a alternar pressão alta com blocos mais médios e até mais baixos, algo que ficou claro desde março. Isso diminuiu a previsibilidade e aproximou mais o meio-campo do ataque, evitando aqueles buracos que tantas vezes deixavam o time exposto em transições. Em vez de um Flamengo que se defendia quase sempre com a posse, passou a surgir um Flamengo mais confortável em escolher o momento de apertar e o momento de baixar a linha.
O segundo mecanismo é a rotação como ferramenta tática, não apenas física. Em muitos times, mudar peças significa perder repertório. No Flamengo de Jardim, pelo menos neste início, a troca constante virou parte da própria ideia. O treinador distribui minutos para manter intensidade, testa encaixes e mexe em setores ainda sem dono claro. Isso ficou evidente nas pontas, onde Samuel Lino, Carrascal, Luiz Araújo, Plata e Cebolinha apareceram em combinações diferentes no recorte inicial. O resultado é um time menos estático e um elenco mais envolvido na construção da temporada.
O terceiro mecanismo é a adaptação sem depender de um meia único para respirar. Quando Arrascaeta, Paquetá e Carrascal ficaram fora ao mesmo tempo, o Flamengo precisou buscar solução sem sua fonte mais natural de criação. E encontrou uma saída circunstancial ao centralizar Plata e liberar Luiz Araújo pelo corredor direito, mantendo mobilidade e intensidade mesmo sem um articulador clássico. O problema no empate com o Vasco não foi a falta de meia como conceito. Foi a incapacidade de sustentar fisicamente a vantagem quando o jogo pediu outra resposta. Esse detalhe importa porque mostra um time já capaz de improvisar a estrutura sem desmontar a ideia.
O quarto mecanismo é mais silencioso, mas também ajuda a explicar a mudança: a rotina. Jardim recolocou concentração na véspera de jogos no Rio e implementou atividades de ativação muscular no dia das partidas em casa ou em clássicos. Isso não é detalhe cosmético. É tentativa de controlar ambiente, carga e foco. O que aparece no campo começa antes do campo. E, quando jogadores do elenco apontam melhora física e mental como uma diferença sentida após a troca de comando, essa percepção deixa de ser bastidor e vira parte do modelo.
Os pontos fortes
O primeiro ponto forte é simples de medir: resultado. Em recorte de 13 jogos, Jardim soma 10 vitórias, 2 empates e 1 derrota, com 28 gols marcados e 8 sofridos. O aproveitamento é de 82,1%. Isso, por si só, já seria um começo forte. Fica ainda mais relevante quando se nota que o time atravessou esse período lidando com ausências importantes, mudanças de formação e rodagem pesada do elenco sem perder a capacidade de competir em Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil.
O segundo ponto forte é a elasticidade do time. O Flamengo já conseguiu ganhar em cenários diferentes: com controle maior, com aceleração, com rotação, com bloco mais baixo, com posse menor e até com mudanças fortes entre uma partida e outra. A vitória por 2 a 0 sobre o Cruzeiro, com apenas 44% de posse, simbolizou bem isso. Foi a menor posse do time em casa no Brasileirão desde 2024, mas não significou desorganização. Significou outra forma de mandar. Essa variação também apareceu em jogos como a goleada sobre o Atlético-MG e o triunfo contra o Bahia, partidas em que o time conseguiu machucar o rival sem ficar preso a uma única cadência.
O terceiro ponto forte é a força coletiva. Jardim ainda não tem um time-base cristalizado, mas já construiu um time reconhecível. Isso talvez seja o principal elogio ao trabalho até aqui. Mesmo com posições em disputa, o Flamengo passou a dar sinais de compactação, intensidade controlada e responsabilidade sem a bola. Não por acaso, o elenco associou a melhora do rendimento ao fator físico e mental. Quando o jogador sente que o time chega inteiro ao jogo e permanece concentrado dentro dele, o treinador já alterou mais do que o esquema. Alterou a confiança operacional da equipe.
Os pontos de atenção
Nem tudo, claro, virou solução. O primeiro ponto de atenção está na sustentação defensiva de certos jogos. Nos compromissos mais recentes, o Flamengo passou a permitir mais finalizações e viu crescer o desconforto em torno da proteção da área. Um levantamento comparativo mostrou que o time de Jardim sofre, em média, mais conclusões adversárias do que o de Filipe Luís. Isso tem relação com estilo. O atual Flamengo é mais vertical, aceita mais trocação e, por isso, também se expõe mais em alguns contextos. O mérito é competir melhor em diferentes cenários. O risco é transformar essa flexibilidade em permissividade.
O segundo ponto de atenção é a gestão da vantagem. O empate com o Vasco foi didático. O Flamengo encontrou saída sem seus meias, abriu 2 a 0, controlou parte importante do jogo e ainda assim deixou escapar o resultado quando a perna pesou e faltou uma solução nova para esfriar a partida. Esse tipo de oscilação não anula o trabalho, mas mostra um estágio ainda em construção. O time já sabe ferir. Ainda precisa aprender a matar certos jogos sem oferecer ao adversário a chance de voltar emocionalmente para dentro deles.
O terceiro ponto de atenção está nas posições sem dono. A rotação é virtude, mas também revela que alguns encaixes ainda não amadureceram por completo. Lateral direita e pontas seguem como setores mais abertos, e essa indefinição pode ser saudável até certo ponto. O problema começa quando a variação deixa de ser solução estratégica e vira sintoma de que o treinador ainda busca uma resposta definitiva para jogos grandes. Jardim parece confortável com esse processo. A temporada, porém, em algum momento vai exigir menos experimento e mais hierarquia estável.
A leitura de cenário
O que mudou em 13 jogos, no fundo, foi a lógica do Flamengo. O time deixou de ser refém de um único jeito de impor superioridade. Hoje consegue variar bloco, variar posse, variar peças e até reorganizar o meio-campo sem abandonar completamente a própria identidade. Isso é um avanço importante porque amplia a margem de sobrevivência competitiva em um calendário que cobra respostas rápidas e diferentes toda semana.
Também mudou a relação entre elenco e jogo. Jardim começou a tratar o grupo como matéria-prima de temporada longa, não como fotografia de uma escalação ideal. Isso ajuda a explicar por que tantos jogadores já foram usados, por que há disputas abertas e por que o Flamengo não afunda quando perde nomes importantes. É cedo para dizer que o time já encontrou sua forma final. Mas já dá para dizer que ele encontrou um caminho mais amplo para continuar competitivo.
A leitura é clara: Leonardo Jardim ainda não entregou o Flamengo pronto. Entregou algo talvez mais importante neste estágio. Entregou um Flamengo mais adaptável, mais físico, mais rotativo e mais difícil de prender a um só roteiro. Em mata-mata e em campeonato por pontos corridos, essa flexibilidade vale muito. O desafio agora é transformar essa boa largada em uma identidade duradoura, sem perder a consistência quando a exigência subir de vez.
A Nota do Radar
Leonardo Jardim não chegou apenas para ganhar jogos. Chegou para mexer na estrutura do Flamengo.
Em 13 partidas, o time ficou menos previsível, mais adaptável e mais confortável em competir por caminhos diferentes. O Radar avalia que a principal mudança não está no desenho tático isolado, mas na troca de mentalidade: o Flamengo já não parece depender de uma versão única de si mesmo para vencer.
Agora a questão sobe de nível. Quando os jogos ficarem mais pesados, essa flexibilidade vai virar identidade vencedora ou ainda vai faltar um ponto de estabilidade para o time se impor sem oscilar?
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